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TEMPOS E PERCURSOS

Os percursos dos professores serão organizados segundo os respetivos ciclos de vida (antes da formação profissional, a profissionalização docente, os primeiros 5 anos de experiência, seguidos dos 10, 20, 30 e 40 anos da experiência docente acumulada) e a sua contextualização socio-histórica segundo o recorte pelas décadas contidas nas balizas temporais do projeto (décadas de 1970 a 2020). Dar-se-á um particular destaque às experiências e vivências relacionadas com o período revolucionário após o 25 de Abril (de 1974).

anos 70

“Talvez, não sei, a mim custa-me estar a dizer mal de colegas, mas para a época talvez não se tivesse esforçado muito ao longo do ano porque nós tínhamos metas para apresentar no ensino. Tínhamos metas de sucesso. No primeiro ano de escolaridade nós tínhamos a obrigação de apresentar 65% de aprovações e nos outros anos de escolaridade, nas outras classes que era como se chamava na altura, nós tínhamos obrigação de apresentar 75%. Portanto, eu teria de apresentar 65% no primeiro ano, 75% no segundo,75% no terceiro e 75% no quarto. E, realmente, as matérias estavam muito mal consolidadas2 (Clara, 1.º Ciclo). 

“Hoje é perto, mas naquela altura era difícil ir ao Porto porque os transportes eram escassos e tínhamos que atravessar o rio Douro. Conclui a escola primária e abriu a 5.ª e 6:º classe. Depois de terminar a 6.ª classe não havia mais nada exceto ir para as minas trabalhar ou emigrar. Na altura em 1969 não era fácil fazer opções de vida. Como tinha vontade de continuar a estudar só me restava ir para o Porto, mas para isso fiz exame de acesso à escola técnica de Gondomar e ao liceu D. Manuel II. Como tive aproveitamento nesse exame fui para a Escola Soares dos Reis, mas como era preciso dinheiro inscrevi-me nas oficinas de S. José e fui aceite, onde trabalhava 8 horas e assim tinha cama e as refeições. Foi um caminho doloroso e de trabalho, mas cheio de vontade. No horário pós-laboral fiz o curso de compositor tipografo na Escola Soares dos Reis e fui trabalhar numa empresa de Artes gráficas” (Carlos, 2.º Ciclo). 

“No ano seguinte, fui parar a Peniche, para uma aldeia de Peniche e foi uma experiência incrível, porque eu lembro-me que chorei quando para lá fui, porque eu não fiquei na Benedita porque não pedi a recondução, queria aproximar-me de casa, e fui parar mais longe, fui parar a uma aldeia de Peniche. E na altura era duro, porque não tinha carro, eu para ir para lá daqui tinha de ir até à Cruz da Légua – portanto, eu vivo no Juncal, agora, e, na altura, vivia no Juncal, eu sou daqui – e então, tinha de ir dois quilómetros até à Cruz da Légua, portanto, tinham de me ir levar de carro. Ou ia a pé, mas, geralmente, iam-me levar de carro, o meu pai. Depois tinha de ir para as Caldas, depois das Caldas ia para Peniche e depois, de Peniche, ia para a aldeia. E quando vinha – havia aulas ao Sábado de manhã, isto ainda antes do 25 de Abril – eu para conseguir vir a casa tinha de roubar um bocadinho de tempo à escola para ir para Peniche, para depois ir para as Caldas, para depois vir para a Cruz da Légua, e chegava aqui por volta das 16h. E depois no Domingo às 16h tinha de me ir embora outra vez” (Fátima, 2.º Ciclo).

“Tenho 70, 70 anos, e comecei a trabalhar tinha uns 22 ou 23 anos, nem tinha acabado o curso, ainda. E comecei a trabalhar assim a meio de um ano. Comecei a trabalhar a meio do ano porque na altura havia colonialismo, ainda, e a professora dessa escola foi para Angola, Moçambique, não sei. E convidaram-me para eu ir lecionar aquelas turmas que ela deixava. E eu como queria casar e não tinha dinheiro, então resolvi – e como gostava – a minha mãe já era professora, de maneira que eu gostava do ensino, e então aceitei. Foi um bocadinho… no início, foi um bocadinho, como é que eu hei-de dizer? Havia muitos nervos, porque entrava naquelas salas e eram quase tão grandes como eu, as raparigas. E havia turmas de raparigas e turmas de rapazes. Não era…” (Rosário, 2.º Ciclo)

“… no antigo regime, como professora do antigo regime. Era uma coisa muito interessante que ela me disse há tempos… ela está reformada – : “Agustina, as minhas professoras, com quem estudei no Porto, e que depois se tornaram colegas, antes do 25 de abril, aquilo era segundo os ditames do regime, isto é, tínhamos um livro único,” dizia ela, “tínhamos um livro único, a professora só podia dizer determinadas matérias, não podia sair dali, porque senão era controlada até pelo reitor, etc., etc. Mas eu tive algumas professoras novas mas que faziam o mesmo: Também era segundos os ditames do regime, com aquele ensino prescrito, tudo, não porque elas fossem” – e isto é que eu acho interessante – “não porque elas… estou a falar das minhas professoras,” – dizia a colega – “não porque elas fossem impreparadas, não era por impreparação. Era por medo.” E, portanto, quando nós, muitas vezes, criticamos de forma… eu dizia: “Mas como é que fez a transição do 25 de abril?” “Eu sempre fui um espírito aberto, já tinha os meus valores e atitudes, mas é um processo lento” (Agustina, 3.º Ciclo e Secundário).

“Ora bem, eu fiz na altura o exame. Havia um exame de admissão ou de aptidão para o ensino para um curso de ensino superior e eu fiz essa admissão para o curso de Biologia. Frequentei-o na Universidade de Coimbra. Foi um curso do ramo educacional. Portanto, tinha sido esse tipo de curso, com ramificação em educacional ou científica, tinha sido criada há relativamente poucos anos, antes de eu iniciar o curso. Na altura os professores um pouco mais velhos do que nós, que tinham feito o curso de Biologia antes dessa ramificação, achavam que nós, do ramo educacional, não teríamos a melhor formação científica” (Amélio, 3.º Ciclo e Secundário).

“Eu de 72 ao 25 de Abril estive suspensa da Faculdade de Ciências. Portanto, foram ali uma série de cadeiras que eu não consegui fazer porque não podia entrar na faculdade. Apesar de os professores serem impecáveis e de me encontrar com eles nos cafés e de me passarem os apontamentos porque estávamos sempre na expectativa de poder ir a exame e de poder acontecer. Portanto, houve muitos professores que nos ajudavam e que nos encontrávamos fora do lugar para nos darem apontamentos, para nos darem as coisas a dizer o que é que vinha para o exame […] o que é que tínhamos que fazer, o que é que tínhamos que estudar. Realmente, o corpo escolar sempre foi impecável, pelo menos na minha área… Foram sempre muito solidários” Talvez, não sei, a mim custa-me estar a dizer mal de colegas, mas para a época talvez não se tivesse esforçado muito ao longo do ano porque nós tínhamos metas para apresentar no ensino. Tínhamos metas de sucesso. No primeiro ano de escolaridade nós tínhamos a obrigação de apresentar 65% de aprovações e nos outros anos de escolaridade, nas outras classes que era como se chamava na altura, nós tínhamos obrigação de apresentar 75%. Portanto, eu teria de apresentar 65% no primeiro ano, 75% no segundo,75% no terceiro e 75% no quarto. E, realmente, as matérias estavam muito mal consolidadas” (Caetana, 3.º Ciclo e Secundário). 

“Encarar a profissão foi muito engraçado porque eu fui colocada numa escola só masculina, que na altura eram masculinas e femininas. Uma escola técnica. E lembro-me perfeitamente que, quando subi as escadas da sala de professores para dar a primeira aula, estavam os alunos todos cá fora, já grandes, altos, no terceiro geral, que seria o equivalente ao nono ano. E o primeiro comentário que eu ouvi foi assim “Oh pá, já há miúdas cá na escola” e eu pensei logo “Isto vai ser lindo!”. Ou eu, como se costuma dizer, não mostro os dentes ou então vai ser um problema. Mas não. Depois dei-me muito bem com eles. Tive alguns problemas no princípio. Enfim, no princípio tudo muito sério e muito disciplinado, depois à medida que o ano foi passando criaram-se relações até muito agradáveis, eu gostei muito. Depois dei aulas à noite, também tinha um horário que tinha um misto noturno, e aí adorei”. (Camila, 3.º Ciclo e Secundário).

“No serviço cívico o Ministério pôs-me. Ou seja, o Ministério soube dessa experiência, não é?, e depois pôs-me a formar os estudantes do serviço cívico para irem alfabetizar. Foi um tempo fantástico. Eu passei uns poucos de conhecimentos a meia dúzia de pessoas e essas pessoas depois davam cursos, não é? As pessoas tinham que aprender. Não tinham lido Paulo Freire. Nem Paulo Freire nem nenhum outro método, não é? Portanto, o importante era desenvolver nas pessoas aqueles princípios que eram os princípios de Paulo Freire e que percebessem o método, a técnica em si. Eu comecei de uma forma calma, aqui no Porto, em comissões de moradores. Ia para lá à noite passar o Sal da Terra e outros filmes fantásticos, e conversava e alfabetizava. Até que às tantas resolvemos, um grupo de amigos, e fomos para Rio Frio, é assim que se chama a terra, é uma aldeia entre Paredes de Coura e Ponte da Barca, que não tinha nem água, nem tinha luz. Estamos a falar em anos 70, pronto, sim, fins, ‘74/’75. Verão de ’74, diria… talvez. Sei que as pessoas viviam em condições miseráveis, para os meninos dormirem metiam-lhes, isso toda a gente sabe, a rolha com o vinho, não é? E era assim que ficavam, porque iam trabalhar para o campo. As pessoas não podiam tomar banho. A água que iam buscar para cozinhar tinham que ir buscá-la ao rio, não tinham dinheiro para ir comprar água. Para conseguirem ir comprar qualquer mantimento que fosse tinham que andar não sei quanto tempo de carreira, ou para Ponte da Barca, ou para Paredes de Coura. Nós também. Não havia eletricidade. Nós guardávamos a nossa alimentação debaixo da terra, como faziam os açorianos. Não havia outra hipótese para conservar os alimentos, não é? As pessoas eram muito desconfiadas, ainda por cima Minho…” (Maia, 3.º Ciclo e Secundário).

“Estive nesta escola – portanto, eu fui do primeiro ano da Licenciatura em Química – Ramo Educacional. Não havia uma Licenciatura, isto foi antes do 25 de Abril, claro, comecei o curso em 1966 e, portanto, não havia ensino direcionado para o Ensino, tirava-se a Licenciatura em Química e depois, com sorte, fazia-se o estágio pedagógico – mas era muito difícil aceder ao estágio. E então efetivar, como se dizia na altura, isso era impossível, era impensável. E portanto, eu fui do primeiro curso dirigido para o ensino, portanto, nós fazíamos 3 anos de ensino científico, ensino normal, e depois quem queria seguir investigação prosseguia com disciplinas científicas; quem queria ir para o ensino, como era o meu caso, tínhamos 2 anos direcionados para o Ensino: mantínhamos algumas disciplinas mas tínhamos pedagogias, didáticas, metodologias da Física e da Química…e depois, o último ano, era de estágio, onde nós dávamos aulas – que eu fiz em 72/73, nessa altura, no Liceu RSI. Nós não tínhamos turmas atribuídas, mas lecionávamos nas turmas da nossa orientadora de estágio, que era uma professora espetacular – temos recordações fantásticas dela – e que nos incutiu o espírito de que a Física e a Química são ciências experimentais. Portanto, “…vocês têm que, por tudo e por nada, fazer experiências. E as experiências têm de se preparar, portanto, não podem ir para a aula sem ter testado 10/20 vezes para saberem tudo o que pode acontecer e depois resolverem o que pode acontecer ou justificar com os alunos: não correu bem porquê?” ou qualquer coisa que houve. Ela era formidável. Nunca mais me esqueço que – calhou-me a mim dar o tema da Acústica, e eu nunca mais me esqueci de estar no laboratório com uma mesa praticamente do tamanho desta, cheia de material, para os alunos fazerem experiências, e eu com eles. E, portanto, esse bichinho ficou-nos, portanto, a Química e a Física são ciências experimentais. Ela era, realmente, fantástica.  Em 72/73 acabei o estágio. ” (Violeta, 3.º Ciclo e Secundário).

“Entretanto, estávamos naquela altura, em 1973, em que se tentava combater o analfabetismo, tanto lá em Angola, como no Brasil, Paulo Freire, por ali. Então resolveram dar formação aos professores – professores que não eram professores – que estavam a dar aulas mas que não eram professores. Íamos tirar o Magistério, mas sem estarmos no Magistério. Isto era feito assim: era feito via rádio, como faziam aqui com a TV, que fizeram aqui durante uns anos. Olhe como fizemos agora com o COVID. Portanto, lá não havia televisão e era uma estação de rádio, a partir das 05h00, uma estação de rádio em que se davam as aulas. Pedagogia, Didática A, Didática B, mais não sei quantas, e Matemática. Davam as aulas ao sábado. Íamos todos – quem estivesse ali em Nova Lisboa, mas também havia noutros lados – a uma escola central, iam lá os professores, íamos debater, tirar dúvidas, falar sobre o que tinha acontecido durante a semana e recebíamos, de novo, as próximas sebentas para a próxima semana” (…) Entretanto, estávamos naquela altura, em 1973, em que se tentava combater o analfabetismo, tanto lá em Angola, como no Brasil, Paulo Freire, por ali. Então resolveram dar formação aos professores – professores que não eram professores – que estavam a dar aulas mas que não eram professores. Íamos tirar o Magistério, mas sem estarmos no Magistério. Isto era feito assim: era feito via rádio, como faziam aqui com a TV, que fizeram aqui durante uns anos. Olhe como fizemos agora com o COVID. Portanto, lá não havia televisão e era uma estação de rádio, a partir das 05h00, uma estação de rádio em que se davam as aulas. Pedagogia, Didática A, Didática B, mais não sei quantas, e Matemática. Davam as aulas ao sábado. Íamos todos – quem estivesse ali em Nova Lisboa, mas também havia noutros lados – a uma escola central, iam lá os professores, íamos debater, tirar dúvidas, falar sobre o que tinha acontecido durante a semana e recebíamos, de novo, as próximas sebentas para a próxima semana. (Rita, Pré-escolar).

anos 80

anos 90

anos 2000

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